segunda-feira, junho 20, 2005

Erva da Semana I: Gestão de Águas Resíduais Descentralizada

Caros visitantes e simpatizantes deste Blog,

Hoje inicia-se a edição do meu artigo semanal, com o qual pretendo ir opinando sobre os vários temas Ambientais.

Esta semana e para começar, decidi trazer até a este Blog um tema que considero ser um dos mais interessantes e talvez um dos desafios mais difíceis na história da Gestão Ambiental, que será a inversão de sistemas de águas residuais centralizadas para sistemas de águas residuais descentralizadas. Convém recordar que os actuais sistemas de águas residuais são centralizados, fruto de um desenvolvimento histórico com mais de 100 anos. Inicialmente, dada a aglomeração cada vez maior de pessoas nas cidades, rapidamente se concluiu que havia uma relação entre as doenças e as condições sanitárias existentes o que levou à construção de colectores de águas residuais que posteriormente as conduziam para fora dos centros urbanos e eram despejadas em meio aquífero. Com o desenvolvimento da consciência ambiental durante o Sec. XX e constatando-se o impacto ambiental destas descargas foram construídas ETAR’s no fim da linha de esgoto. Esta solução não é a solução ideal quer do ponto de vista técnico, quer do ponto de vista económico.

Ref.: Cotação do World Bank, publicação; “Sanitation and Diesease” “Aqueles que o trabalho é desenhar e seleccionar um sistema apropriado para a colecção e tratamento de esgotos, devem manter em mente que as praticas comuns, da América do Norte e Europa, não representam o expoente máximo do alcance científico, …, estas práticas, não são necessariamente o que faríamos se tivéssemos a oportunidade de começar tudo de novo.”

Desde há muitos anos todos nós, conhecemos o sistema de separação de resíduos: separação do papel, vidro, plástico, etc… Separamos esses resíduos com a consciência de que a reciclagem faz sentido. Por outro lado reparamos que as águas residuais são despejadas como uma “mistura” que é descarregada pelo sistema de esgoto conjuntamente com uma quantidade enorme de água potável, sendo que neste sistema os nutrientes e fertilizantes ficam por usar.

Sistema de Tratamento Centralizado - Sistema de Tratamento Descentralizado

De uma forma ideal o sistema descentralizado deverá providenciar uma separação individual e o tratamento dos diferentes tipos de águas residuais, permitindo uma óptima reutilização – exactamente como os sistemas que conhecemos para o tratamento de resíduos sólidos. Ao reduzir a quantidade de águas residuais a serem tratadas os processos tecnológicos mais avançados poderão ser aplicados a um custo razoável, permitindo a obtenção de um concentrado valioso de fertilizante e água para irrigação e reutilização como água de serviço. Com este método assegura-se o uso ecológico dos recursos de água e óptima utilização dos seus recursos. O tratamento descentralizado ideal pode ser definido como: “O tratamento de águas residuais orientado para a separação dos caudais por substâncias.” Outra das grandes vantagens na gestão de sistemas de águas residuais descentralizadas é a redução de custos do tratamento retendo as águas e sólidos mais perto da sua origem através da reutilização. Aliás é minha obrigação deixar aqui registada a minha dificuldade em compreender o actual sistema de gestão de águas residuais, onde a grande parte do investimento incide na construção e manutenção de redes de esgotos que se limitam a transportar água contaminada de um ponto A para um ponto B, para não falar dos potenciais riscos de contaminação de solos e águas subterrâneas. Passo a dar um exemplo: Segundo a Acta de reunião n.º 42/2002, realizada a 10 de Dezembro de 2002 da Câmara Municipal de Cantanhede a ampliação da rede de saneamento da tocha – 2ª fase, prevê a drenagem gravítica das águas residuais ao longo de 21 Km, servindo uma população de 1546 habitantes e 386 construções a servir. Os prováveis custos de trabalhos foram estimados na ordem de 1 milhão de euros + IVA. Isto significa 47.620 € / Km; 647 € / habitante e 2.590 € / construção a servir. (Derrapagens de orçamento não foram calculadas) (www.cm-cantanhede.pt/dataimages/Acta%2042_02.doc) No momento actual existem soluções tecnológicas de tratamento de águas residuais por tecnologia de membranas de ultrafiltração mais eficientes e economicamente competitivos quando comparados com os custos de investimento de uma rede de saneamento. Através da reutilização da água como água de serviço o consumo de água potável poderá ser reduzido de 200 l para 100 l, (pessoa/dia), com simples modificações das instalações em casa, resultando numa eventual economia anual em água por 1000 habitantes de 36.500 m3 e de 31.025 € em água a uma tarifa de 0,85 cêntimos Isto não é um sonho, isto é possível e a resposta está no:

“Tratamento de águas residuais orientado para a separação dos caudais por substâncias.”

As águas residuais podem ser separadas em 3 tipos de águas:

Esquema de Tratamento dos 3 cursos de águas residuais

- Águas amarelas – Urina

- Águas castanhas – Fecais

- Águas cinzentas – Lavagens

Separando as águas residuais na sua origem podem ser aplicados processos de tratamento específicos atingindo eficiências superiores. É também possível através desta separação um melhor aproveitamento de nutrientes e a redução do volume de água potável necessário diariamente.

Tratamento de águas cinzentas

O primeiro grande objectivo do tratamento deste tipo de águas é a sua reutilização. O grande volume de águas residuais produzidas em casa são águas cinzentas provenientes das lavagens, (máquina de lavar roupa, loiça e banho), tendo um teor relativamente baixo de carbono orgânico e nutrientes não tornando necessária a recuperação destas matérias das águas cinzentas. Estas características permitem utilizar o processo de tratamento por membranas de ultrafiltração com o qual se consegue obter água usada sem germes que pode ser reutilizadas em lavagens, limpezas e regas de jardim.

Tratamento de águas amarelas

Estas águas, apesar do seu volume reduzido, cerca de 1,5 l/dia por pessoa, contêm quase todas as substâncias nutritivas e fertilizantes, como o fósforo, o azoto e o potássio. Estes 1,5 l, uma vez diluídos tornam impossível qualquer recuperação dos nutrientes presentes, por motivos económicos e técnicos. No entanto com o aparecimento de sanitas “no-mix” (www.roevac.de/html/english/supply-sub5.htm), a recuperação de nutrientes pode ser feita de forma económica.

Tratamento de águas castanhas

Neste caso como as sanitas “no-mix” são lavadas de forma convencional, as fezes misturam-se com grandes quantidades de água de lavagem. Para que as matérias fecais possam aceder ao tratamento anaeróbio, estas devem ser concentradas através da separação da matéria sólida da fase líquida. A fase sólida depois de ser estabilizada poderá ser utilizada como húmus e a fase líquida poderá ser utilizada para irrigação depois de ter sido sujeita a um tratamento biológico, (possível com tecnologia de membranas).

Numa altura em que se discute o problema da escassez de água, que aliás é considerado o maior problema do planeta pelas Nações Unidas, o actual conceito de tratamento de águas residuais deverá ser questionado pois não possibilita uma redução eficaz do consumo de água nem um aproveitamento de nutrientes. Uma vez ser este um tema complexo e digno de uma exposição mais aprofundada, este tema voltará em edições futuras. No entanto caso alguém esteja interessado em algum esclarecimento ou pretenda saber algo mais sobre o assunto estarei disponível para qualquer esclarecimento ou apoio necessário. Para concluir recordo apenas um excerto deste artigo:

“…as praticas comuns, da América do Norte e Europa, não representam o expoente máximo do alcance científico, …, estas práticas, não são necessariamente o que faríamos se tivéssemos a oportunidade de começar tudo de novo.”

10 Comments:

At 6:44 da tarde, Anonymous suzanna matos said...

Parabéns pelo blog. Segui o teu link no Estrago da Nação. Será que posso colocar o teu link no meu blog também? http://sosbixarada.blogs.sapo.pt/ (Cantinho dos bixitus) ???
Cumprimentos.

 
At 7:25 da tarde, Blogger Pedro said...

Ola Pedro

Olha estou a postar o comment relativemente ao cleanenergy, acerca do artigo da science, na verdade eu nao li o artigo sobre desta novidade atraves de um site no entanto penso que em qq livraria devem vender a science
um abraço
Pedro Martins

 
At 12:03 da manhã, Anonymous Anónimo said...

Artigo interessante. Merece outros, provavelmente mais pormenorizados. Obrigado pela disponibilização. Octávio Lima (ondas2.blogs.sapo.pt)

 
At 9:26 da manhã, Blogger Solariso said...

Caro Octávio Lima,

O assunto da gestão descentralizada das águas residuais urbanas merece naturalmente ser aprofundado, por isso e com toda a certeza voltarei a falar deste assunto, tendo em vista a exposição de metodos e tecnologias necessárias para este tipo de tratamento.

 
At 4:20 da tarde, Anonymous joana said...

Obrigada pelo teu comentário no meu blog. Já coloquei o teu link. Estou a gostar muito do teu blog, continua.

 
At 6:45 da tarde, Blogger lux said...

Sugiro então que prestes alguma atenção no dia 1 de Julho próximo. A Assembleia da República irá discutir as propostas e projectos de Lei de Bases da Água, que, pese embora não sejam a resposta directa ao tratamento das águas, estabelecem as bases da sua gestão e utilização.

 
At 4:46 da tarde, Anonymous Anónimo said...

Aqui há uns tempos escrevi um artigo sobre sanitas compostoras, que pode de alguma forma complementar este.
Parabéns pelo blog. Subscrevo o cabeçalho.
Com a história do incêndio, esqueci-me de assinalar o Solstício de Verão :( . -- JRF

 
At 7:32 da tarde, Anonymous Dacostt said...

Boas!
Grato pelos comentários no Planner, gostei muito dos artigos que vi no teu blog, já por aqui tinha passado por ligação com o Planear da Ju.
Em relação a este post, não podia estar mais de acordo com o que li, já falei com algumas pessoas sobre este tipo de sistema e mesmo de outros em particular o de sistemas colectores separados, uma vez que alguns dos sistemas de saneamento existentes no país são unitários. Mas respostas que tenho obtido são quase sempre as mesmas, que não é economicamente rentável. Infelizmente no nosso país ainda se pensa assim, mas começam a existir algumas mudanças de atitude e são essa que devem ser divulgadas, como exemplos a seguir. Existe um projecto que se chama “Casa do Futuro”, que entre a eficiência energética, tem pensado uma gestão da água de forma sustentada, reutilizando-a no próprio sistema de forma alternada. Mas como disseram os responsáveis com que falei, é um processo lento pois o sector é conservador.
Penso que sempre que for possível devemos utilizar os blogs para mostrar boas práticas e tentar assim mudar a opinião pública, por isso continua com o bom trabalho que tens feito.
Dacostt

 
At 5:56 da tarde, Anonymous Anónimo said...

Caro Pedro,
Li alguns excertos do teu blog e estou agradavelmente surpreendido por encontrar alguém tão interessado na matéria, deduzo que sejas engenheiro do ambiente ou algo parecido, d qq forma e resumindo, sou arquitecto e interesso-me muito por formas de tornar mais sutentáveis os edifícios construídos e a construir. Vim parar ao teu blog por acaso, estava a pesquisar sobre águas inzentas, mas teria muito gosto em contactar contigo via e-mail. Talvez me pudesses fazer algumas luzes sobre alguns assuntos que não domino inteiramente. Grato pela atenção possível. Votos de que continues a escrever com o mesmo entusiasmo por muito e mais tempo. Mario Freitas. mario_freitas33@hotmail.com

 
At 4:46 da tarde, Anonymous Paulo Poção said...

Caro Pedro, parabéns.
Li o teu artigo sobre Gestão de Águas Residuais Descentralizada, porque ando a pesquisar sobre a reutilização de águas cinzentas; devo no entanto acrescentar que não tem sido fácil encontrar informação objectiva. Iniciarei brevemente a construção de uma casa e estou muito interessado neste assunto. Básicamente quero pôr isto em práctica! Gostaria de te poder contactar por e-mail, pois falta-me muita informação.
Desde já muito agradecido e com os votos de continuação de bons artigos.
Paulo Poção p.pocao@netcabo.pt

 

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